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Ordinarices: Trocam-nos as palavras

Olhando em meu redor, lendo artigos e entrevistas, ouvindo os noticiários e as pessoas chego à conclusão que a moda é trocarem as palavras para nos dar a volta.

Já não se diz problema, diz-se desafio. O país enfrenta novo desafio. Problema é feio e não fica bem.

Quando não se tem dinheiro para fazer algo, diz-se que neste momento isso não é uma prioridade. E um programa não falha, depara-se com necessidades de atualização.

Também não convém chamar alguém de novo rico, é preferível chamar de empresário – mesmo que não tenham nenhuma empresa nem sejam empreendedores. Fulaninha de tal, empresária. Outra palavra, agora diz-se empreendedor em vez de desenrascado. Este jovem empreendedor criou um negócio de estafetas com apenas uma bicicleta.

Já não há donos nem patrões, são todos CEOs. Não há senhoras de limpeza, são técnicas de limpeza ou TL – porque as abreviaturas dão outra categoria às coisas. Não há cangalheiros, pois ao que parece morreram de vergonha com o nome e agora são agentes funerários. E já não se faz a recolha de lixo, mas sim o tratamento de resíduos. Não há funcionárias da escola, mas auxiliares de educação. A prostituição não é uma profissão legal, mas as prostitutas são profissionais do sexo. 

Não há pobres, mas cidadãos com menores possibilidades. Não há impostos, mas contribuições. Não há subsídios de subsistência, mas sim de reinserção social – resta saber quem insere o quê e onde! Ou então fala-se de transparência, quando se quer dizer que apenas se expõe em hasta pública aquilo que dá jeito.

As prisões são estabelecimentos prisionais onde reside a população prisional. Uma pensão é um hostel – e existem a par dos verdadeiros hostels aproveitando-se da fama do conceito.

Um prato enorme onde a comida ocupa apenas 10% do espaço é gourmet. Produtos alimentares artesanais são gourmet. Qualquer coisa que seja pequena, tenha pão ou tostas, ou um paté de enchidos é uma tapa (quantas desilusões!).

No meio desta nova forma de comunicar, torna-se difícil perceber quando se está a usar determinada palavra no seu verdadeiro sentido ou quando se trata de um devasso eufemismo que tende a esconder a realidade. Podiam inventar novas palavras para não me confundirem, uma vez que começo a sentir que sou iletrado – que é a nova forma de dizer que me sinto burro.

 

 

2 comentários

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    J. M. 28.10.2014

    Dizer report em vez de relatório é indicador de superioridade intelectual, não é?
    Agora mais a sério (um bocadinho), para mim, alguns estrangeirismos até se justificam, mas nos casos em que são resultado da globalização. Se a palavra "original" ou o conceito de aplicação de determinada palavra são estrangeiros não vejo necessidade de adaptação na língua materna. 
    Por exemplo: Blog ou Post e até mesmo fazer um Like no Facebook. O uso de FYI, ASAP, RSVP ou AKA, uma vez que são as abreviaturas originais, em vez de as traduzir por abreviaturas em português.
    Não creio que os estrangeirismos assassinem a língua materna. Até porque acredito que, sendo a língua é parte integrante do individuo e da sociedade, se estes evoluem e se adaptam o mesmo deverá acontecer com a língua. E não será por isso que a língua se torna menos rica ou menos sentida.
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